Consequências da Quarentena nos Adolescentes


09 Aug

As medidas adotadas em Portugal para fazer face à propagação do Covid 19, quer para tentar não sobrecarregar o sistema nacional de saúde, quer pela própria saúde individual e coletiva foram uma série de ações que começaram por colocaram o país no chamado “estado de emergência”, indiscutivelmente necessário, mas por vezes mal-interpretado ou executado de forma excessiva.

As famílias adotaram medidas extremas de cuidado, sem perceberem que com isso também estavam a fomentar outros desequilíbrios…

Infelizmente assisti a muitos jovens que estiveram 2 meses quase sem poder “colocar o nariz fora da janela”, sem ver os namorados ou namoradas, sem estar com amigos mesmo dentro da distância de segurança e já depois de termos saído do estado de emergência. 2 meses em total isolamento social e familiar, porque a maioria também não quer passar tanto tempo com a família (faz parte de ser adolescente) e viram-se fechados nos seus quartos a olhar a vida só pela janela e pela tela do computador! Embora compreenda a posição dos pais e a sua preocupação em proteger os filhos, penso que permitiram que o seu medo se propagasse para eles de forma pejorativa e com consequências sérias para o equilíbrio emocional, sobretudo dos adolescentes.

As crianças mais pequenas são mais fáceis de distrair dentro de casa e os adultos têm uma capacidade de compreensão e aceitação que os adolescentes ainda não têm. Parece-me que eles foram os que mais sofreram com esta cultura do medo que se difundiu como água que escorre pelos dedos e que não conseguimos conter…. Foram os que mais sofreram também com o isolamento ao qual foram sujeitos.

Do isolamento a que foram sujeitos, alguns jovens começaram a revelar traços depressivos, outros sintomas de ansiedade crescente. Emagrecimento, dificuldades de dormir, dificuldades em concentrarem-se nas tarefas da escola, falta de vontade de comunicar, deixar de ter vontade de sair de casa, deixar de praticar atividade física, dificuldade de comunicação e vivência familiar com consequente isolamento no quarto, são alguns dos muitos sintomas que os jovens que acompanho têm revelado. Associado a estes aspetos temos ainda jovens que já tinham ansiedade social e que com esta quarentena agravaram o seu quadro. Como sabemos a ansiedade vem sempre do medo, neste caso o medo dos relacionamentos interpessoais, com os quais, melhor ou pior, tinham de se confrontar todos os dias na escola e com o devido acompanhamento iam crescendo na capacidade de se relacionarem mais e melhor. Com a quarentena, inicialmente pareceu-lhes ótimo! Não tinham que lidar com essa tensão diariamente e podiam estar simplesmente relaxados. Com o passar dos dias foram deixando de ter vontade de comunicar com as pessoas ainda que de forma virtual e da ansiedade boa, de eu quero e vou lidar/ultrapassar os meus medos deixaram-se simplesmente cair no abatimento, na falta de vontade e de estímulo para o que quer que seja.

Neste momento começamos devagarinho a regressar às nossas atividades laborais presenciais e escolares (só para alunos de 11º e 12º ano) e vai ser urgente cuidar das consequências que a reclusão trouxe consigo, cuidar do medo de ser contaminado e tentarmos todos aprender novas formas de nos relacionarmos, sem nos colocarmos em perigo, sobretudo sem colocarmos o país em perigo, mas cuidando também da nossa sanidade mental.

O ser-humano é um animal social e o Português especificamente de presença e de toque.

Sabemos que o toque neste momento é perigoso, ok, mas vamos ter que encontrar novas formas de voltar a conviver ainda que dentro da distância de segurança ou com máscara e mesmo que nos continuemos a cumprimentar com o cotovelo, não podemos deixar de que o Covid nos retire a necessária convivência social e nos empurre fisicamente saudáveis, para a falésia do desequilíbrio emocional, sobretudo da depressão e da ansiedade.

Existem inúmeros estudos que mostram a importância das relações entre pares para um desenvolvimento saudável e harmonioso, principalmente no período da adolescência. Para além disso, sabemos também que o isolamento desenvolve no cérebro o aumento da produção de um determinado neurotransmissor que faz com que exista uma maior propensão para a agressividade, medo e ansiedade. Quando este neurotransmissor existe no organismo em quantidades exageradas, superiores às que o corpo deveria normalmente produzir, as pessoas não conseguem voltar à atividade normal, mesmo depois da ameaça passar.

Isto tem que ser uma preocupação para todos nós, pais, terapeutas e educadores. Precisamos ajudar os nossos jovens a aprender como retomar a vida! Não podemos mesmo deixar que continuem fechados em quatro paredes ou o desfecho será talvez mais catastrófico do que o próprio covid.

Ana Galhardo Simões

Psicoterapeuta Corporal

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