Especialistas alertam sobre o regresso às escolas – “É impossível que não haja casos, infelizmente vai acontecer”


13 Aug

Especialistas alertam para a necessidade de mecanismos para minimizar os impactos da propagação do vírus nas escolas. Diretores dos estabelecimentos de ensino preparam há semanas o novo ano letivo e garantem que este ano “a máscara vai passar a ser um material mais importante do que o manual”. Temperatura não será medida à entrada.

Os alertas para uma nova vaga de infeções têm sido dados pelos especialistas em saúde pública nos últimos tempos, mas certo é que, a acontecer, vai coincidir com o início do próximo ano letivo. E, pais a levarem os filhos à escola e alunos a deslocarem-se em transportes públicos são fatores que contribuem para aumentar o risco de infeção. “É impossível que não haja casos, infelizmente vai acontecer”, alerta Ricardo Mexia, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, questionado a propósito daquilo que está a acontecer noutros países em que as escolas iniciaram a sua atividade e foram obrigadas a encerrar dias mais tarde por causa da identificação de casos positivos entre alunos e professores. 

“É muito difícil assegurar que não há nenhum caso nas escolas e, por isso, é preciso ter mecanismos que permitam, por um lado, segmentar as turmas e, por outro, fazer com que perante o surgimento de um determinado número de casos numa turma não seja necessário encerrar todo o estabelecimento de ensino”, defende o médico especialista em Saúde Pública. O facto de o mês de outubro estar já marcado pela possibilidade de uma nova vaga, representa, explica ao i Ricardo Mexia, “um desafio muito importante”, não só pelos alunos, mas também porque “o inverno tem uma maior circulação dos vírus respiratórios”. “Enxertar nos invernos, que já colocam muita pressão no Sistema Nacional de Saúde, uma pandemia, pode ter um impacto grande”, acrescenta o especialista, alertando, ainda assim, para um ponto positivo no meio destes novos tempos: “Fruto do distanciamento físico e da utilização das máscaras, é provável que os vírus respiratórios circulem menos este inverno”. 

A pandemia do novo coronavírus prejudicou a experiência escolar às crianças, adolescentes, professores e encarregados de educação. Os estudantes viram-se obrigados a ficar em casa e a ter aulas em formato digital através de aplicações de videoconferência, à medida que as autoridades se debatiam com a crise de saúde. O encerramento de escolas pode ter evitado casos adicionais da COVID-19, uma vez que famílias e professores se isolaram durante o confinamento obrigatório ou voluntário. Assim, o próximo ano escolar pode estar igualmente comprometido, pelo menos em parte.

Por todo o mundo há um debate contínuo sobre a abertura de escolas em segurança, considerando o risco de infeção. No entanto, um novo estudo traz dados preocupantes. O estudo afirma que as crianças podem ter até 100 vezes mais coronavírus nos seus corpos do que os adultos.

Crianças podem ter até 100 vezes mais coronavírus que os adultos

As crianças podem ser infetadas com o novo coronavírus. Embora não esteja claro quão contagiosas possam ser, ainda existe o risco de passarem a doença aos seus educadores e membros da família. Um novo estudo indica que as crianças infetadas podem transportar tanta carga de coronavírus nos seus narizes e garganta como os adultos.

A mesma investigação também proporciona uma conclusão mais preocupante sobre os infantários, uma vez que os cientistas descobriram que as crianças com menos de cinco anos podem albergar até 100 vezes mais vírus no trato respiratório superior do que os adultos. A investigação não prova que as crianças sejam infecciosas, apesar de o vírus se replicar com tanta facilidade nos seus narizes e gargantas.

Referiu Taylor Heald-Sargent, especialista no Ann e Robert H. Lurie Children’s Hospital de Chicago. Este especialista em doenças infecciosas pediátricas liderou o estudo que foi publicado na JAMA Pediatrics no início da semana passada.

O estudo apenas procurou RNA viral a partir de amostras recolhidas de crianças, não o vírus vivo, e não mediu se o vírus poderia replicar-se. Provavelmente este poderá ser o próximo passo a investigar, isto porque é importante perceber se as crianças podem ser infecciosas.

Amostras retiradas no epicentro da doença nos EUA

Os testes PCR com coronavírus amplificam o material genético em ciclos para efetuar uma leitura. Quanto mais vírus estiver presente na zaragatoa que recolheu a amostra, menos ciclos são necessários para um diagnóstico positivo. Heald-Sargent descobriu que os testes das crianças estavam a voltar com baixos “ciclos de limiar” (CT), o que significa que as amostras tinham muito RNA viral. O investigador analisou então os resultados dos testes anteriores.

Foram então analisadas as amostras recolhidas entre 23 de março e 28 de abril em locais preparados para o efeito em Chicago, nos EUA. No total, analisaram esfregaços de 145 pessoas, incluindo 46 crianças com menos de 5 anos, 51 com idades compreendidas entre os 5 e os 17 anos, e 48 adultos com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos. A investigação excluiu dos resultados os menores que necessitavam de suporte de oxigénio, e a maioria das crianças apenas relatou febre ou tosse.

Os investigadores apenas queriam pacientes que tiveram sintomas ligeiros a moderados, e que soubessem exatamente quando ocorreram os primeiros sintomas.

Descobriram que as crianças mais velhas e os adultos tinham valores de CT semelhantes, enquanto as crianças com menos de 5 anos tinham valores de CT inferiores.

Disse o Dr. Heald-Sargent.

Coronavírus: Serão os infantários contagiosos?

Embora o estudo possa carecer dos dados necessários para provar que os infantários são contagiosos, revelou resultados semelhantes à investigação da Alemanha e França, segundo o The Times. Um estudo da Alemanha mostrou que crianças de 1 a 11 anos tinham cargas virais tão elevadas como os adultos sem apresentarem sintomas. A investigação da França indicou que crianças assintomáticas tinham valores de CT semelhantes aos das crianças com sintomas, o que indica uma carga viral semelhante nos seus narizes e gargantas.

Esta investigação prova que crianças de todas as idades podem ser infetadas com o vírus. Isso é uma preocupação mesmo que não sejam contagiosas. É improvável que todas as crianças com COVID-19 não sejam contagiosas. E alguns dos pacientes mais jovens morreram de complicações da COVID-19, embora não seja provável que as crianças experimentem um caso grave da COVID-19. Além disso, há também a Síndrome inflamatória multissistémica pediátrica (sigla em ingês MIS-C) em crianças, complicações COVID-19 observadas por pediatras em vários países em pacientes que foram anteriormente infetados com o novo coronavírus.

Assim, se os riscos foram maiores que os benefícios, será que a ciência deve permitir a abertura de escolas neste outono? 

Fonte: comregras.com