Mudar em família - Rumo a um estilo de vida saudável e preventivo


23 Sep

De acordo com o estudo Global Burden of Disease (GBD), que informa sobre mortalidade e incapacitação causada por 107 doenças à escala global, em 2017, os hábitos alimentares inadequados dos portugueses foram o terceiro fator de risco que mais contribuiu para a perda de anos de vida saudável, nomeadamente devido a doenças metabólicas, doenças do aparelho circulatório, e neoplasias.

O baixo consumo de cereais integrais, fruta e frutos oleoginosos e sementes e a alta ingestão de sódio foram os factores de risco alimentar com mais expressão na caracterização destes hábitos inadequados.

A obesidade e o excesso de peso, são também uma consequência desses mesmos hábitos, ao mesmo tempo que estão entre os fatores causais das doenças apresentadas. Em 2015, 38,9% da população portuguesa (25-74 anos) tinha excesso de peso e 28,7% sofria de obesidade (Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico 2015), sendo que os dados mais recentes da prevalência de excesso de peso em crianças dos 6 aos 8 anos é de 29,5% (incluindo obesidade). A prevalência de obesidade infantil aumenta com a idade (Estudo Europeu COSI-Childhood Obesity Surveillance Initiative for Europe).

A esta pandemia junta-se a que vivemos mais recentemente por infeção por SARS-CoV, num ciclo vicioso em que a nossa nutrição tem impacto na nossa imunidade e por isso na forma como “recebemos a doença”, e, por outro lado, o próprio cenário de isolamento, alteração de horários, modelo de compras, stress e acessibilidade que a quarentena veio despoletar traz consigo alterações de consumos alimentares em pelo menos 45% da população avaliada ( segundo Inquérito nacional sobre alimentação e exercício físico em contexto de pandemia).

-> 30,9% dos portugueses aumentara o consumo de snacks doces por outro lado, 31,4% passam a petiscar mais frequentemente , 29,7% aumentaram consumo de fruta, entre outras mudanças às quais se associa o aumento dos níveis de sedentarismo.

Neste contexto e relembrando o cenário em que 1 em 3 crianças têm excesso de peso e por isso maior susceptilização a doenças futuras, é agora ainda mais relevante cuidar da alimentação da família, visualizar a perspectiva preventiva da Saúde e aplicar desde cedo a educação alimentar junto destas.

Sabe-se que o comportamento alimentar é determinado por factores relacionados com o próprio alimento (sabor, aparência, disponibilidade), por factores biológico (estado fisiológico, genética, estado nutricional), mentais (qualidade dos pensamentos, crença relativa ao alimento, referências) e uma grande fatia pelo contexto ambiental/social em que estamos inseridos (crenças, tradições, dinâmicas familiares, informação, mídia).

Dentro deste contexto ambiental, os pais, os cuidadores, a escola e a disponibilidade de alimentos têm a maior fatia de influência sobre a criança ou adolescente, podendo oferecer um ambiente saudável e educativo ou o contrário.

É durante esta fase de crescimento e entrada na adolescência que o jovem aprende e experimenta os vários grupos de alimentos, formas de confeção e aprendem também uma forma especifica de comer. O tipo de alimento adquirido, a qualidade e preparo, e os próprios comportamentos alimentares (como comer rápido por exemplo), são nutridos pela influência dos hábitos alimentares dos cuidadores – modelo.

Por este motivo, modificar ambientes alimentares obesogénicos e envolver a família no processo de mudança parecem ser dois elementos chave para a eficácia de mudanças comportamentais e alimentares. É neste sentido, importante procurar competências junto do profissionais competentes, não apenas sobre o que mudar, mas simultaneamente, de como fazer acontecer.

Consulte aqui 10 dicas para incentivar positivamente a alimentação saudável junto dos seus filhos e prevenir um contexto promotor de doença:

1-Defina um plano estratégico para uma alimentação saudável que inclua toda a família e comunique

Defina o que gostaria de atingir em termos de objetivos alimentares a curto e médio prazo. Começe por pequenas mudanças que todos acordam implementar. Devem ser exequíveis e ter uma data limite onde falarão do assunto de novo (ex: consumir 2 frutas por dia até dia 20 de outubro).

Esta etapa, beneficia se consultar um nutricionista para estudar o conjunto de hábitos alimentares e de estilo de vida de cada elemento, conhecer as porções alimentares adequadas, orientar prioridades e estratégia nutricional, escolher produtos do mercado de forma enquadrada e facilitar o planeamento de dias saudáveis para todos.

2-Procure o máximo de refeições em família e crie o desafio

Procure o incluir toda a familia no processo, crie uma EQUIPA. Delinear uma rotina familiar e a sensação de pertença, vai facilitar a aquisição a manutenção do processo de mudança. Evite situações - obstáculo e atitudes divergentes, por exemplo, a mãe aplica a regra da marmita escolar e o pai oferece dinheiro para que o adolescenete compre de um lanche no bar.

3-Faça um registo diário do cumprimento do novo comportamento por elemento da família e transforme isso num jogo!

O ambiente de partilha, o desafio e sensação de objetivo comum, criam uma ambiente de competição saudável e aumenta a motivação de cada elemento, o que poderá facilitar o alcançe dos resultados e tornar o processo mais divertido!

Uma ideia de quadro de registo de hábito saudável que pode fixar no frigorífico e de um jogo para o aumento da atividade física em família:

https://wavecrestcafe.com/wp-content/uploads/2017/06/SummerParentGuide_Espan%CC%83ol.pdf

4-Faça o resto da família e contactos próximos, saberem da mudança saudável que estão a procurar em grupo

A oferta de alimentos pouco saudáveis por parte de outros familiares é muitas vezes referida pelos pais como uma dificuldade ao cumprimento das recomendações alimentares, constituindo uma barreira à mudança.

5-Troque a palavra “dieta” por estilo de vida

Os programas de tratamento e prevenção da obesidade infantil, excesso de peso e condições de dislipidemia ou diabetes na criança devem promover mudanças permanentes e não dietas e planos de exercício físico a curto prazo.

Embora a palavre “dieta” derive de “diaita”, termo grego para designar estilo de vida,ela simboliza hoje res trição e tem ganhado uma conotação negativa e expressão de algo que é temporário. Inclua na família o termo equilibrio, alimentação saudável ou do bem estar. Encontre um termo que todos sintam como algo positivo e expresse uma alimentação que possa ser feliz e sustentável ao longo do tempo.

6-Determine o momento de refeição, como uma pausa em que a atenção será centrada do simples ato de comer

Falta de tempo, distanciamento do hábito de cozinhar, oferta de produtos industrializados, a falta de um ambiente alimentar, horários irregulares e a distração com a televisão ou telemóvel, podem despoletar comportamentos alimentares inadequados (como comer rápido, não mastigar, não percepcionar sabores) e a procura de alimento como recompensa noutros períodos. Aprenda em família a valorizar o momento da refeição e a tornar a mesa um local de convívio e atenção.

7-Inclua a criança nas preparações culinárias ou na preparação das suas marmitas escolares

8-Reduza a disponibilidade de alimentos que não estão incluídos no padrão alimentar saudável

Existe uma relação direta entre disponibilidade e consumo, pelo que a disponibilidade (pelo menos visualmente) de alimentos menos saudáveis, ou a partilha da refeição em que todos consumam determinado alimentos com excepção da criança, poderá ser um obstáculo.

9-Incentive pela positiva e introduza novos alimentos de forma gradual

Introduza alimentos que a criança rejeita com outro que gosta: Exemplo juntar hortícolas que não tolera com massa/canelones ou em omelete e explicar a importância deste consumo. Persista variando as texturas, cores e confeções.

Evite práticas restritivas e categorização dos alimentos alimentos como “maus” e “bons”. Contudo, devem ser estabelecidas regras, nomeadamente em relação à frequência do consumo de alimentos com maior densidade energética.

10- Celebre a aquisação de novos hábitos

A recompensa facilita a consolidação do hábito saudável. Pode premiar a famíla com um filme, uma saída, um piquenique ou uma atividade divertida. Evite premiar com comida ou utilizando o consumo de certos alimentos como recompensa por outros outro. Ex: disponibilizar um bolo em troca de um aumento do consumo de sopa.

Maria João Resende

Nutricionista 2649N

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Fontes:

Ramos M, Stein L. Desenvolvimento do comportamento alimentar infantil. Jornal de Pediatria. 2000; 76(Supl 3):S229.

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Plataforma PNPAS- Programa nacional para a promoção da alimentação saudável

Inquérito nacional sobre alimentação e exercício físico em contexto de pandemia: https://www.dgs.pt/programa-nacional-para-a-promocao-da-atvidade-fisica/ficheiros-externos-pnpaf/rel_resultados-survey-covid-19-pdf.aspx

Gruber K, Haldeman L. Using the Family to Combat Childhood and Adult Obesity. Preventing Chronic Disease. 2009:08_0191.

Han J, Lawlor D, Kimm S. Childhood obesity. The Lancet. 2010;

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Baptista I, Lima R. Educação Alimentar em Meio Escolar Referencial para uma Oferta Alimentar Saudável. Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação: Lisboa; 2006.

Arias N, Calvo MD, Benítez-Andrades JA, Álvarez MJ, Alonso-Cortés B, Benavides C. Socioeconomic Status in Adolescents: A Study of Its Relationship with Overweight and Obesity and Influence on Social Network Configuration. Int J Environ Res Public Health

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