Vitamina D puericultura [artigo de opinião]


01 May

A vitamina D tem sido alvo de intenso debate em doença humana nas últimas duas décadas. Ao défice aparentemente generalizado de vitamina D têm sido atribuídas numerosas patologias em que esta deficiência parece estar envolvida quer na sua génese quer num aumento da sua gravidade.

Na verdade, a vitamina D não é uma vitamina. Em 1931, o químico alemão Adolf Windaus, da Universidade de Göttingen, constatou que ela tinha a mesma estrutura das hormonas esteroides, das quais o cortisol e as hormonas sexuais são o exemplo mais conhecido. Nos anos 90, com a descoberta do receptor para a vitamina D, difundiu-se que seria uma classe em si mesma, devido à ausência de um órgão alvo específico, como acontece com outras hormonas. "Imagine uma rede de internet aberta por uma única chave: a vitamina D."

A vitamina D é uma chave bioquímica que abre as portas de milhares de diferentes processos fundamentais para a vida. Se os seus níveis forem adequados, não faltarão chaves e as células funcionarão em plena atividade. Mas, com níveis baixos, várias dessas funções ficarão bloqueadas. Por isso, sem vitamina D, a vida é impossível.

A síntese de vitamina D ativa é feita por processos biológicos complexos; no ser humano, a sua síntese implica uma fonte de "matéria-prima", que é fornecida essencialmente pelo sol. A luz solar - aquela que envelhece a pele e aumenta o risco de cancro. O raio ultravioleta B (UVB) do sol desencadeia uma série de reações químicas que iniciam o processo de produção de vitamina D ativa.

Os humanos, desde sempre, mantiveram uma relação íntima com o sol. Mas, quando a revolução industrial entrou em cena, no século XVIII, essa história tomou outro rumo; as cidades começaram a estreitar-se, os prédios cada vez mais próximos, ficando cheias de sombras. O aumento da poluição dificultava a passagem dos raios solares. As crianças começaram a apresentar deformações ósseas e dos dentes. Estavam a sofrer de uma doença pouco conhecida até então: o raquitismo.

Em 1916, Harry Steenbock, da Universidade de Wisconsin, descobriu que a luz solar era a resposta para o raquitismo. Por outro lado, um estranho fenómeno ocorria no norte da Europa, onde o  raquitismo era claramente menos prevalente; o segredo estava na dieta: alimentavam-se, principalmente, de peixes selvagens e consumiam muito óleo de fígado de bacalhau.

O bioquímico americano Elmer McCollum, também da Universidade de Wisconsin, analisou esses alimentos e neles encontrou uma nova substância, que batizou de vitamina D. Os médicos passaram a receitar óleo de fígado de bacalhau. A indústria do leite começou a fortificar os laticínios e derivados com vitamina D.

Mas, de lá para cá, aconteceram várias mudanças. Primeiro, o nosso estilo de vida passou a incluir cada vez menos sol. Usamos protetor solar, ficamos mais tempo em locais fechados. Por uma boa causa, claro: proteger a pele do cancro. Porém, aplicar um filtro solar fator (FPS) 15 reduz em 98% a produção dessa vitamina.

Finalmente, a esperança de vida aumentou de forma significativa, e com ela o envelhecimento cutâneo e um maior confinamento domiciliário, com perda fisiológica da síntese de vitamina D.
Surgem síndromes como a sarcopenia e as fraturas de fragilidade com impacto na funcionalidade e na sobrevida.

Em 2020, entramos na maior pandemia do homem industrializado, o mundo foi colocado de quarentena, idosos e crianças em confinamento e um muito provável aumento de deficiência grave de Vitamina D irá acontecer.

Porém entre os espectros da osteomalacia no idoso e do raquitismo da criança, existem um sem número de consequências associadas ao défice de Vitamina D, que acontecem desde a relação materno-fetal até à idade adulta. A deficiência em vitamina D tem sido associada a pré-eclampsia (doença materna da gravidez), a um maior número de infeções virais, mais exacerbações de bronquiolites e asma e um a maior potencial de desenvolvimento de doenças autoimunes.

Se em circunstâncias normais, essa população globalmente saudável, poder-se-ia obter vitamina D através de uma vida e alimentação saudável, em épocas de inverno em latitudes menos favoráveis ou fases de confinamento obrigatório, faz sentido suplementar com Vitamina D, colmatando a sua deficiência.

Prof. António Marinho - Medicina Interna - Hospital de Santo António do Porto