Células estaminais ajudam crianças a recuperar de doença rara associada à Covid-19


03 Apr
03Apr

O tratamento com células estaminais favorece a rápida recuperação de crianças com Síndrome Inflamatória Multissistémica em Crianças (MIS-C), doença que surge na sequência da infeção por SARS-CoV-2 e que, em Portugal, já afetou algumas dezenas de crianças. A conclusão é de um estudo científico publicado recentemente na revista oficial da Academia Americana de Pediatria (The American Academy of Pediatrics). 

A MIS-C é uma doença rara que pode surgir em crianças devido a uma desregulação do sistema imunitário, na sequência da infeção pelo vírus que causa a Covid-19. Desde a primeira vez que foi descrita, na Europa, em abril de 2020, a sua prevalência tem vindo a aumentar, acompanhando o crescimento do número de pessoas infetadas por Covid-19. 

Febre alta persistente, erupções cutâneas, conjuntivite e dores no corpo são sintomas comuns em crianças com esta doença, que podem ser seguidos de sintomas mais severos, decorrentes da insuficiência cardíaca que frequentemente desenvolvem. Apesar da taxa de mortalidade baixa, esta doença requer internamento hospitalar e pode levar a consequências graves, como a falência de vários órgãos, nomeadamente o coração, os pulmões e os rins. 

Neste estudo, foram incluídas duas crianças diagnosticadas com MIS-C, tratadas recorrendo a um produto de terapia celular – designado Remestemcel-L – à base de células estaminais mesenquimais da medula óssea. A opção por este tipo de células é justificada pelos autores tendo em conta os seus efeitos anti-inflamatórios, de regulação do sistema imunitário e de estimulação da reparação de tecidos danificados e da formação de novos vasos sanguíneos. 

As crianças, uma com 4 e outra com 10 anos, eram saudáveis e começaram por apresentar febre alta persistente, sintomas gastrointestinais e mal-estar geral durante cerca de 5 dias. Posteriormente, foram hospitalizadas com hipotensão, insuficiência renal aguda, choque, disfunção cardiovascular e marcadores inflamatórios muito elevados. 

Ambas as crianças foram inicialmente tratadas com medicação convencional, incluindo corticosteroides e anticoagulantes. No entanto, embora se tenha observado alguma melhoria no seu estado clínico, houve uma série de parâmetros importantes que continuaram a apresentar valores anormais, nomeadamente os marcadores inflamatórios e de insuficiência cardíaca. Por esta razão, as crianças foram consideradas para terapia com células estaminais, no âmbito de um tratamento experimental. 

As crianças receberam duas infusões intravenosas de Remestemcel-L, com 2 dias de intervalo, que resultaram na normalização da função cardíaca e da inflamação. Esta recuperação permitiu que tivessem alta entre 2 a 5 dias após o segundo tratamento com células estaminais. 

A Dr.ª Bruna Moreira, investigadora do Departamento de I&D da Crioestaminal, explica que, “tendo em conta o sucesso do tratamento destas duas crianças, a utilização de células estaminais mesenquimais parece constituir uma opção terapêutica promissora no tratamento da síndrome inflamatória multissistémica pediátrica associada à Covid-19”. Até à data, aproximadamente 1100 pessoas, incluindo 311 crianças, foram já tratadas com o Remestemcel-L, com um perfil de segurança e eficácia favorável.