‘A casa’


‘A casa’
Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.
A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.
Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…
E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.
Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 


Mia Couto, ‘A casa’, in 𝘛𝘳𝘢𝘥𝘶𝘵𝘰𝘳 𝘥𝘦 𝘤𝘩𝘶𝘷𝘢𝘴
Ilustr. Soosh