Mala d'estórias


Mala d'estórias
Quase vencida pelo peso do sono, a Noite virou-se para a Lua e perguntou-lhe:
- Onde vais passar este ano o teu Natal?
- Vou passá-lo com os meninos mais tristes e mais pobres das cidades - respondeu a Lua.
- Mas esses meninos - argumentou a Noite - são tão tristes que nem festejam o Natal.
A Lua esboçou um sorriso e respondeu-lhe: 
- Aí é que te enganas. Se eu descer à Terra, é para festejar com eles, podes crer que terão um Natal que nunca mais se irão esquecer.
A Noite, que era experiente e astuta, considerou essa possibilidade e decidiu colocar à Lua esta questão:
- Mas se tu desceres à Terra para festejar o Natal com eles, isso significa que eu vou ficar às escuras nessa noite, pois a única luz que verdadeiramente me ilumina é a tua.
A Lua quis tranquilizar a amiga:
- Mas tu tens a luz dos arranha-céus, a dos candeeiros da rua, a dos projetores dos palcos e dos estádios e das cidades inteiras quando estão iluminadas.
- Tu bem sabes- replicou a Noite - que a tua luz é mais forte do que as outras todas juntas...
- Mas só uma noite não há de fazer mal, se eu sair do meu posto e for para junto daqueles que mais precisam de mim...disse a Lua.
- Aí é que tu te enganas - respondeu a Noite, - pois a tua ausência é sinónimo  de uma escuridão quase total e até é bem possível que com essa atitude, mudes o curso dos rios e a cadência das marés, o ritmo das colheitas e o ciclo da fertilidade das terras.
_ Mas, em compensação, deixarei muitas crianças tristes, finalmente felizes por terem uma peripécia para contar numa cidade onde nada acontece, a não ser a tristeza que a pobreza lhes causa - disse a Lua.
Decididamente, a Noite e a Lua pareciam incapazes de se pôr de acordo quanto à forma como iriam passar a Noite de Natal...
Foi então que a Noite decidiu fazer uma sugestão:
- Bem podias fazer um esforço no sentido de, nessa data, teres a forma de Lua Cheia.
Se tal acontecer, poderás deixar a parte maior a iluminar-me e enviar um fatia de quarto minguante para entreter as tais crianças que agora tanto te preocupam.
A Lua refletiu em silêncio sobre a sugestão que acabara de lhe ser feita e respondeu à Noite:
- Aceito a sugestão, mas vou pô-la em prática ao contrário. Deixo-te uma fatia de quarto minguante para te iluminar e levo, a parte maior para alegrar as crianças da cidade triste que já escolhi.
A Noite não respondeu, pois tinha acabado de adormecer já desinteressada da discussão.
A Lua, então, calçou umas pantufas feitas em algodão das nuvens e desceu à Terra para se ir encontrar com as crianças mais tristes da rua mais triste da mais pobre das cidades.
Quando a Noite acordou, nem luz teve para encontrar o copo de água de orvalho para limpar o resto da escuridão. Protestou, mas desta vez a Lua não lhe respondeu, pois estava cercada de crianças numa velha praça iluminada com uma banda a tocar num coreto e com grinaldas de luar encimando as copas de árvores despidas de folgas e tiritando de frio.


José Jorge Letria. A Noite, a Lua e os Meninos Tristes
In : A árvore das histórias

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