VOU TE Contar


VOU TE Contar
«Quando eu era ainda bebê, fiquei doente e precisei ser hospitalizada.
O ano era 1980, meu pai tinha um velho rádio de pilha que ele ligava todas as madrugadas para ouvir música caipira.
Minha mãe conta que, assim que eles voltaram do hospital, ele pegou o rádio de pilha e o colocou num lugar bem alto, dizendo que só o ligaria de novo quando eu voltasse para casa.
Fiquei internada por vários dias, o meu pai era só silêncio, não havia música nas madrugadas, os dias eram só silêncio.
Quando finalmente recebi alta, minha mãe foi correndo me buscar (naquela época, não era permitido acompanhante, mesmo para um bebê. Fiquei "sozinha" no hospital durante todo o período de internação).
De longe, no colo de minha mãe, vi meu pai, abri um sorriso sem dentes e estendi os bracinhos.
Meu pai correu pra pegar o velho rádio de pilha, imediatamente o ligou, dizendo: "minha pretinha voltou"! Me pegou nos braços e dançou comigo por todo o terreiro, numa alegria sem fim...
Ainda tenho medo, pai. Ainda preciso que me espere num dia qualquer, e me receba, e ligue seu rádio, e abra um sorriso, e dance comigo sua música favorita.
Seu amor por mim ficou tatuado e, por mais que a vida sangre, guardo a certeza de que fui e sou amada.»

-Eunice Ramos